DOR.

Sucumbo,
mergulho fundo no escuro dos meus aposentos.
Para dentro da casa com portas e janelas trancadas, cerradas.
Barricadas de sacos de areia de sentimentos estáticos.
Porém elásticos.
Sacos esvaziados pela correnteza de lágrimas que se forma muito antes do meu rosto encharcar.
Sacos gastos, puídos.
Falidos, munidos da pobreza de espírito característica dos ouvidos que não falam;
dos olhos que não ouvem;
da língua que, incapaz de sentir qualquer cheiro, não sabe o que é rosa e o que é bueiro.
Estou confuso.
Obtuso de tanto pensar,
morrendo a morte do pesar,
vivendo a vida a lamentar,
como uma agulha que costura juntos o que não se fazer
e o que se fazer para (não) parar de penar.

Faísca

Eu
e essa minha mania de falar,
de conversar
e pôr pra fora
os males e mazelas
dela,
da minha cabeça.
Por vezes presa,
acesa.
Faísca
e o sinal que pisca
de que algo
em mau funcionamento
está a funcionar.
Dicotomia.
Fazia tempo
que meu tormento
estava a se acalmar.
Faísca.
Fagulha.
E borbulha
uma chateação sem cessar.
Falo.
Explico.
Suplico
por uma anestesia
que apague meus sentidos,
corroídos pelo pensar.
Ansiedade,
que nada mais é do que
o excesso de futuro
na mente,
que mente
que tudo vai passar.
Paro.
Penso,
mas depois de falar.
Faísca,
uma risca no meu pensamento
me impedindo a vida,
que pode ser menos doída,
talvez,
se me calar.

Canceriano do dia 3

E no primeiro gol,
no primeiro grito de gol,
na primeira gota de suor escorrida pelo rosto,
na segunda,
na terceira…
Eu entendia que tudo em volta me proibia,
Que aquilo não passaria de uma folia,
Mas mesmo assim eu o despia.
Na minha cabeça eu o despia de forma rápida e violenta,
violentando o corpo moreno que,
na realidade,
se quisesse,
se ele quisesse,
faria facilmente o violentado ser eu.
E eu queria ser violentado,
ser forçado, jogado de um lado para o outro lado
antes mesmo do meu corpo conseguir pensar no movimento seguinte.
“Canceriano”, ele disse, “do dia três, por quê?”
E meu sangue quente, e minha mente
que sequer me deixava raciocinar.
“Consente”, eu ouvi.
Mas vinha de dentro de mim,
junto com o impulso de pegá-lo pelo braço,
dar apenas um passo e sentir meus pelos
nos pelos dele.
E eu nem sei se ele tem pelos.
Mas na minha cabeça,
assim como o despia da forma mais rápida que eu sabia,
existia a certeza de que nunca aconteceria.
E no fim, decidi esquecer,
deixar pra lá,
reprimir a paixão violenta —
no sentido animal de paixão
e marginal de violento —
que ainda sedenta
assolava cada um dos meus poros,
que a essa altura deixavam escapar
o cheiro de sexo que só existia
dentro.

Sangue nos olhos

E agora,
A raiva que me consome inteiro
Faz eu me sentir um bueiro
Cheio de esgoto.
Roto.
Um arroto.
Um aborto.
O sangue quente percorre cada vaso
Cada traço
Formigando o braço
Com a pressão de um jato.
A jato.
A sensação de sangue circulando
Sem parar nem mesmo quando
Deveria.
Coração batendo acelerado
Imaginando como seria
O ter trucidado.
Arrancado do peito dele
Do corpo dele
Qualquer coisa que o impedisse de perecer.
Mas quando tudo se esvai,
A máscara cai,
E volto a ser aquele mesmo cão,
Obediente de forma incoerente,
Carinhoso, com o rabo a abanar.
Mas da cabeça não sai
A imagem que vai confortar
E fazer deitar a revolução
Que me faria quebrar
As correntes entre o que se sente
E o lugar onde se está.
O sangue já não salta aos olhos.
As pontas dos dedos já não tocam mais
As palmas das mãos com tanta força.
O pé já não bate contra o chão
Com a violência cheia de incompreensão.
Estou acalmado.
O monstro desistiu mais uma vez
De sair através das palavras tantas vezes proferidas
No imaginário.
Guardei a faca na bainha.
Chacina, agora, só amanhã.

Das dificuldades de sair da cama

Ah, meu amor, nunca foi tão difícil. Quer dizer, difícil sempre é. Mas hoje… Ah, hoje, como hoje você foi chato. Depois de desligar e religar o despertador dezenas de milhares de vezes. Depois de abrir um olho enquanto o outro permanecia cerrado. Depois de ter de descolar meu corpo da cama. Depois e somente depois de tudo isso, depois de todo esse sofrimento, de todo esse desgaste, quando meus olhos já se faziam vivos… se depararam com você, ali, deitado. Você, ali, ainda num sono que, pelo que entendi, ainda demoraria a acabar. Meus ouvidos ouviam o barulho da chuva que batia nas telhas da garagem, me dizendo que sair de casa seria ainda pior.
Que equívoco! Sair de casa, ainda que sob uma chuva torrencial, nunca seria tão difícil quanto desatrelar meus pés dos seus, desgrudar minhas pernas das suas, abrir meus olhos com os seus ainda fechados, te ver, e ter de te deixar. Neste momento em que me encontro, sou apenas ciúme. Ciúme da cama que não precisou se desligar de você. Não tão cedo. Pôde, a miserável, permanecer e aproveitar o seu calor por mais tempo, protegendo-se, assim, do frio dessa manhã cinza, molhada e desinteressante. Ciúme do escuro do quarto, que permaneceu te olhando, mesmo que você não retribuísse os olhares. Ciúme do quarto que te manteve em cativeiro, enquanto eu, o aspirante a bandido, na esperança de sequestrar-te, tive que sair e enfrentar a vida, tão cinza, tão molhada e tão desinteressante sem você.

ErreJota

Com perdão pelo roubo,
pelo plágio,
pelo arremedo,
pela cópia.
Mas não me sinto mal
nem se falarem que é paródia.
Não posso me culpar por pensar o mesmo,
por ter o mesmo sentimento,
por ser aquilo que ele diz ser.
Sou aquele personagem.
Aquele das novelas,
dos filmes,
das séries,
dos poemas.
Sou eu lírico,
sou protagonista,
sou artista.
Cantor de uma bela canção,
ator de cinema,
dou entrevista pra revista.
Preciso me expressar,
botar isso tudo pra fora,
e é pra já,
e é agora.
Sou o poeta que conta,
que relata,
que retrata
toda aquela história
de dor,
de sonho,
na Lapa ou na Glória,
de pés entre pés,
lábios entre lábios,
pelos entre pelos.
De presentes não dados,
de cartas sem selos.
De paixão e de ardor,
deixando à mostra
um imenso amor.

“… o tempo rodou num instante nas voltas do meu coração.”

Eu fico curioso quanto aos meus sentimentos.
Minha cabeça trava batalhas diárias com meu coração, todo o tempo, o tempo todo.
De um lado, a razão me diz que meu coração não pensa; do outro, meu coração, apegado, sussurra que minha mente não sabe o que diz.
E nesse cabo de guerra em que me encontro… enfim…
O costume, esse danado; o hábito, esse safado; o medo de mudar, esse…
Desejo mudar todos os dias, várias vezes por dia, como antibiótico. Nos meus pensamentos, mudaria da água para o vinho em momentos diversos, muito pouco complexos, ou não. Mudaria de trabalho, de casa, de marido… de marido não! Mudaria de roupa, cor do cabelo, dos olhos, mudaria meu nariz… bem, meu nariz também não!
Mas outras coisas, questões mais profundas, pontos enraizados, verdades absolutas, que me contam mentiras, me engambelam, ganham tempo. Tempo que perco.
A vida nos manda sinais. Sinais de que já não devemos ir adiante. Mas a gente vai mais um pouquinho. Existem aqueles sinais que nos mostram que, há tempos, vivemos de dar murros em facas pontudas, espadas afiadas, muros chapiscados, arames farpados.
Mesmo assim… mas, mesmo assim, o danado do costume, o safado do hábito — e por que não hábito safado? — nos segura por mais uma semana ou duas… um mês ou três… um ano ou dez.
Costumamos pensar que é o amor que nos segura. Estamos habituados a repetir que “só é amor se é pra sempre”. Mas não nos damos conta de que tudo isso, esses danados e safados, só está ali pelo medo de mudar.
Estamos presos. Amarrados. Cristalizados. Engessados. Travados. Paralisados. Tudo isso, apenas por medo de mudar.
Lembro de já ter passado por isso várias vezes… várias vezes… várias vezes. E também lembro da minha mãe dizendo que “ciclos se fecham, e é melhor que os fechemos com chaves de ouro, para que as memórias continuem sendo memórias e não pesadelos recorrentes”. Ela dizia que rodas impedidas de girar empenam. E quem precisa de uma roda empenada? “É melhor nos despedirmos dos amores para que eles durem para sempre. Amores de todo dia, muitas vezes, não aguentam tanto sentimento.”
Eu peço ao Universo a força que me falta para eu deixar que se encerrem os meus ciclos. O desapego das rodas que, neste momento, me incluem em seus giros empenados. A ótima sensação de abrir as mãos e deixar esse anel, agora largo aos meus dedos, deslizar e encontrar novos donos, novos eu-líricos, novos narradores. “Vão-se os anéis, ficam os dedos”, afinal de contas!
Peço que as facas pontudas virem montes de algodão felpudo; quero quebrar o gesso que me prende, viver um novo ciclo, um novo giro. Quero novos ares, novos lares para chamar de meus. Quero excomungar o hábito, excluir o costume do meu Evangelho — escrito por mim, pelo espírito (livre) de mim mesmo.
Dos ciclos antigos, até agora tão bonitos, me despeço com um longo abraço e um beijo em cada lado do rosto e entrego toda a minha sinceridade.
Não fiquemos tristes. A frase que nos corta a pele, a constatação que nos fere também é a esperança de um reencontro em breve. “A vida é um ciclo”, a gente vai e volta, gira e para, de repente, no mesmo lugar, tentando resgatar alguém que caiu dessa brincadeira que é viver numa roda gigante.